Nível médio do mar (por vezes abreviado para nível do mar) é a altitude média da superfície do mar medida em relação a uma superfície terrestre de referência. O nível médio do mar é por sua vez utilizado como ponto de referência a partir do qual são medidas as altitudes dos acidentes topográficos e marcadas as curvas de nível e as altitudes nos mapas e plantas. Um conceito relacionado é o de zero hidrográfico, em geral utilizado em hidrografia costeira e na medição de profundidades de portos e barras. Na maior parte dos casos o zero hidrográfico é feito coincidir com o nível médio do mar ou tem com ele uma relação simples e constante.
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Embora pareça uma questão de resolução simples, a determinação da superfície de referência a partir da qual determinar o nível médio do mar oferece grande complexidade: por um lado o nível do mar não é de todo constante, variando constantemente em função da ondulação, das marés, da pressão atmosférica, temperatura das águas do mar e de múltiplos outros factores cíclicos que sobre ele actuam com períodos que variam de segundos a vários anos.
Para além dos factores de natureza cíclica e dependentes de circunstâncias astronómicas ou meteorológicas, o nível do mar está ainda sujeito aos efeitos das variações impostas pela eustasia, o que torna a determinação do seu nível médio deveras complexa.
Por outro lado, à complexidade imposta pelas flutuações do nível do mar há que juntar as que são impostas pela necessidade de obter um referencial fixo em relação ao qual realizar as medições. De facto, grande parte das costas e fundos dos mares estão sujeitos a lentas subidas ou descidas impostas pela isostasia e pelo deslocamento das placas tectónicas. Logo, para além da dificuldade de determinar o nível há ainda a necessidade de encontrar um adequado ponto fixo de referência (o datum) a partir do qual efectuar as medições e expressar os resultados.
A medição do nível médio do mar foi tradicionalmente feita com base nas leituras dos marégrafos, instrumentos que permitem medir a variação do nível das águas num determinado local. Eliminando dos dados recolhidos as flutuações devidas às ondas, a factores meteorológicos e às marés e outros factores astronómicos, obtém-se uma leitura do nível médio do mar durante determinado período por referência ao datum utilizado.
As medições assim obtidas incorporam os efeitos eustáticos e isostáticos, sendo em geral escolhidos como referência para o datum ambientes geológicos estáveis, isto é onde as variações isostáticas e outras que afectem a altitude do ponto de referência sejam negligíveis, isolando assim apenas os efeitos eustáticos.
Esta dependência em relação ao datum (referencial de altitude) e a necessidade de obter medições sobre áreas extensas de oceano onde referenciais adequados não estão disponíveis, levou, por um lado, à utilização de medições com base na reflexão de radiação electromagnética a partir de um satélite (altimetria por satélite), e por outro, à utilização de sistemas de posicionamento global GPS na medição. Estas medições, por não dependerem dos movimentos relativos da crusta, pelo menos directamente, e se poderem reportar a grandes áreas oceânicas, são mais seguras e permitem uma melhor avaliação do nível médio do mar e da sua variação.
Por mais cuidadosa que seja a medição do nível do mar a nível local, o resultado obtido está sempre dependente das condições específicas que o rodeiam, dificilmente podendo ser generalizado para toda uma região, e muito menos para todo um oceano. Por outro lado, a superfície do planeta não é absolutamente esférica, antes apresenta, para além do efeito do achatamento polar, múltiplas irregularidades devidas à topografia. Mesmo a superfície dos oceanos não é regular (mesmo se eliminarmos os efeitos das ondas, da pressão atmosférica e das marés) já que diferenças no campo gravítico da Terra, causadas pela presença de montes submarinos, diferenças na densidade dos materiais da crusta e do manto, a profundidade dos mares e a proximidade das costas, causam subidas e descidas (que podem ter amplitudes de alguns metros) na posição da superfície equipotencial do campo gravítico terrestre correspondente ao nível regional do mar, que se traduzem, em termos absolutos e quando analisadas em grandes escalas, em colinas e vales permanentes na superfície das águas.
Para fazer face a estas dificuldades de generalização e criar uma superfície de referência uniforme (um datum extensível a toda a Terra), foi criado o conceito de geóide, uma superfície ideal que corresponderia ao nível médio do mar num planeta ideal, com um campo gravítico uniforme, onde o único desvio em relação à esfericidade perfeita fosse o achatamento polar. Na ausência de forças externas, o nível do mar coincidiria com o geóide, já que em estado de repouso a superfície das águas seguiria em todos os pontos a mesma equipotencial do campo gravítico. A partir desta superfície imaginária podem-se medir facilmente os desvios para baixo e para cima da superfície real dos mares, permitindo a criação de cartas representando, à escala global, o nível médio dos mares (ou o seu nível em qualquer momento e a respectiva variação relativa e absoluta).
Quando expressa em relação ao geóide, a posição da superfície do mar, ou seja o seu nível, apresenta diferenças constantes da ordem dos ± 2 m, para além daquelas que são devidas a variações estéricas, isto é de volume, devidas à temperatura, e aos efeitos das correntes. Os modernos mapas da superfície dos oceanos, elaborados a partir de medições altimétricas feitas por satélite, são em geral feitos tendo como referência um geóide, existindo diversos, calculados a partir de diferentes variáveis base.
Como quem já observou o mar pode de imediato dizer, o nível das águas muda constantemente em cada ponto do mar, sendo também claras as diferenças entre diferentes lugares (entre os extremos do canal do Panamá há uma diferença de 20 cm entre o nível médio do Atlântico (mais baixo) e do Pacífico). Essas variações podem ser agrupadas em dois tipos: variações temporais e variações espaciais.
A variação temporal do nível do mar segue um padrão complexo devido à inter-relação de um conjunto vasto de efeitos que podem ser incluídos nos seguintes grandes grupos:
A longo prazo estas variações tendem a determinar um conjunto de padrões de mudança do nível médio do mar que, se excluirmos os efeitos das glaciações, tenderia para um valor constante quando considerada a média sobre longos períodos. Tal não acontece devido às enormes flutuações impostas pelos sucessivos períodos glaciais, os quais podem impor flutuações do nível do mar da ordem da centena de metros. Estima-se que o nível do mar há 18 000 anos atrás, em pleno período glaciar, fosse cerca de 130 m abaixo do actual devido ao efeito combinado do sequestro de água pelos glaciares e mantos de gelo e da diminuição da temperatura das águas (com consequente contracção do seu volume - o efeito estérico).
Para além da variação temporal atrás apontada, o nível dos oceanos, mesmo descontando os efeitos meteorológicos e das marés, não é constante em cada bacia oceânica ou mar, desviando-se sensivelmente do geóide de referência. Um conjunto de efeitos podem influir no aparecimento destas variações, nomeadamente:
Em resultado dessas variações espaciais, a superfície dos mares, quando observada numa escala suficientemente detalhada, apresenta alto e baixos permanentes, correspondentes ao equilíbrio entre a massa de água e a equipotencial do campo gravítico que lhe marca a superfície.
A estes efeitos há que juntar a elevação dos terrenos costeiros. Existem diversas regiões onde as terras estão abaixo do nível médio do mar, particularmente em áreas endorreicas onde a evaporação excede a precipitação e o aporte de água pelos rios afluentes (como a bacia do Mar Morto), ou onde os terrenos forma conquistados ao mar através de diques e outras protecções costeiras: grande parte da superfície dos Países Baixos está abaixo do nível médio do mar e muitas áreas do Bangladesh e grande parte das ilhas coralinas dos oceanos tropicais estão apenas alguns metros acima do nível médio do mar, com todos os riscos de inundação que tal situação comporta.
Um dos principais riscos associados ao aquecimento global da Terra devido às alterações climáticas é a subida do nível médio dos oceanos. Pelas razões atrás apontadas, em especial pelo aumento eustático nível do mar devido à fusão dos glaciares e dos mantos de gelo da Antártida, associados ao aumento do volume das águas por expansão térmica, o nível do mar que vem subindo a um ritmo de 2 mm/ano, poderá acelerar substancialmente, pondo em risco diversas áreas costeiras. Um aumento de apenas 1 m no nível do mar pode deixar submersas diversas ilhas do Pacífico e tornar inabitáveis vastas áreas do Bangladesh.
Para além do efeito directo da subida do nível do mar, há ainda a considerar o aumento do poder erosivo, em especial nos cordões dunares e nas praias, e o impacto sobre as infra-estruturas portuárias e de defesa da costa contra inundações.
Para uma discussão mais aprofundada do impacto da subida do nível médio do mar veja este artigo na páguna da Universidade de Harvard (em inglês).